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Nelson Freire
Les Collines d’Anacapri, de Debussy
Concerto di Nelson Freire - Sala Palestrina
Ambasciata del Brasile a Roma
No réveillon
desse ano, a festa do Minas Tênis estava super animada. Num dos palcos até uma
sósia de Layde Gaga deu o ar da graça. Igual na voz, na roupagem, no
comportamento de palco - tudo como duas personagens de Plauto. Um show! A jovem,
como se quisesse reinventar a bomba atômica nos últimos minutos de 2012,
iradiava com todas as curvas de uma fêmea afogueada e bela, em delírio, num
requebrado convulso, magnético.
Passava tanta energia para a platéia,
que logo contaminou até a moçada dos cinquenta, sessenta anos que
pulou para a pista de dança, afim de misturar e engrossar a massa multicor de
gente que sacudia o corpo ao ritmo de um som delirante. Isso mesmo.
Representação de um inferno alegre e divertido sob os céus da
existência.
Na manhã
seguinte, depois de um descanso merecido pela extravagância ladygaganiana,
acordo e ligo a televisão. A telinha logo se abre com Nelson Freire
interpretando Les
Collines d’Anacapri,
de
Debussy
– pianista nascido em Boa
Esperança, pertinho da minha cidade de Passos – anunciando em ótimo som que o
novo ano seguia musical. Coisa boa!
Abençoado por bons propósitos, sob as
luzes de um céu cinza-azul povoado de pequenas nuvens brancas em Belo Horizonte,
pintou enorme vontade de chamar os dois filhos presentes na cidade, Vitória e
Chico, para almoçar num selfservice onde eu pudesse comer um bacalhau
ensopado, sem atrapalhar a querência deles para outras
iguarias.
- Bacalhau,
pai?
- Degusto
bacalhau... Vocês comem o quiserem.
Acertado o
cardápio, começamos a procurar um restaurante aberto no primeiro dia do ano.
Nada fácil. O único que encontramos foi a Pizzaria Mangabeiras que não
tinha bacalhau para servir, mas apresentava opções que os dois
aplaudiram.
Sentados, mesmo sem pedirem elucidações
pela minha preferência por bacalhau, comecei a explicar para eles
que as primeiras lembranças que tenho do peixe salgado está nas minhas raízes de
garoto crescido no interior. Naquela época, considerado peixe de segunda, era
mesmo muito barato. Para chamar atenção dos clientes, os armazéns de ‘secos e
molhados’, dependuravam o peixe salgado até do lado de fora do balcão, mostrando
que o estabelecimento fornecia um produto de boa qualidade para atender a
freguesia que não podia assar uma leitoa ou iguaria semelhante no almoço do
Natal ou do Ano Novo. Quem entrasse no empório podia degustar uma lasquinha
antes de definir pela compra.
Um dos filhos pergunta
curioso:
- Por que, pai,
era tão barato e hoje é tão caro?
- A explicação
é, economicamente, histórica. Desde quando o Brasil passou a dominar o mundo com
o abastecimento de café, os navios que vinham buscar o produto em grão, enchiam
os navios de bacalhau para dar lastro na embarcação – o bacalhau, pela alta
produção nos mares da Europa, manteve o preço baixo por longos e longos anos.
Aportando aqui, os navios cafeeiros, abarrotados de caixas de madeira branca,
despejavam o peixe nos portos por qualquer preço. Do mesmo jeito, os camioneiros
que saiam para o interior buscar grão de café ou queijo passando por estradas
ruins, para dar lastreio, enchiam as carrocerias de seus caminhões com o peixe
da Noruega, principalmente. No destino, a história se repetia, vendendo bacalhau
por qualquer oferta.
Quem viveu essa época sabe, guarda
lembranças.
Mesmo sem o
bacalhau gratinado ou ensopado foi um almoço familiar de grande importância.
Saboreamos os três um gostinho de família em tempos modernos, desejando uns aos
outros um ano com boas doses de risos para todo o mundo.
Ridendo castigat
mores.
Com
peixe salgado, ou sem ele, tomara que o bom humor se alastre como surto por
todos os lados, feito chama colorida pipocando pelo céu índigo.
Como o ano começou com música e acho que
deve continuar assim, finalizo com as palavras do músico e escritor Fernando
Brant, colhidas na sua crônica de quarta-feira última, jornal Estado de
Minas, reproduzindo o trecho:... Tudo cercado da beleza da música, da
poesia, do amor guardado no coração e explicitado em gestos, beijos. Penso em
pessoas de ontem e de hoje e desejo a todos o que o título desta crônica diz:
feliz tudo para todos.
Desejando a todos aproveitar doismil13
de forma bastante produtiva, agradeço e retribuo as mensagens recebidas em 2012.
Feliz
Ano Novo.
* FBN© – DOISMIL13. SALVE!... -
Categoria: Crônica. Autor: Welington Almeida Pinto – janeiro 2013
http://nataloutravez.blogspot.com.br/2011/12/em-edicao_9469.html