domingo, 18 de dezembro de 2011

* APRESENTAÇÃO

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* INDICE

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É NATAL OUTRA VEZ.


*
Feliz Natal e próspero Ano Novo 


PRAÇA DA LIBERDADE ILUMINADA- BELO HORIZONTE - YouTube




Welington Almeida Pinto






Welington Almeida Pinto

As casas nas cidades, cada dia mais, são verdadeiros anúncios luminosos anunciando o Natal. As praças e os jardins também. Milhares e milhares de lâmpadas coloridas enfeitam com tanta intensidade que transformam Belo Horizonte em Cidade-Luz.

Nos shoppings, principalmente. Neles a festa, alimentada pela força do marketing, abusam de anjos e arcanjos para reforçar Papai-Noel como personagem principal da folia de fim de ano. O bom velhinho, mesmo em tempos modernos, faz o maior sucesso entre a criançada que não abre mão de tirar uma foto sentada no seu colo.

Logo bate uma saudade danada dos natais guardados no bauzinho da infância, lá em Passos. Tudo muito alegre e encantado, como se o Menino Jesus estivesse distribuindo estrelas por todas as esquinas da minha cidade. O que é muito bom, recarrega o coração.

Nada de presentes caros. A gente se divertia mesmo era com aquele monte de miudezas que nos enchia de alegria e beleza. A festa começava na véspera com a reunião dos familiares para a preparação de uma farta ceia com leitões, patos ou franguinhos assados - peru ainda era uma ave rara. Mas também não podia faltar galinha gorda ao molho pardo, nem pão de queijo, broa de milho, rabanada e rosca da rainha. Muito menos, os doces em compotas guardados lá no ‘guarda-comida’, como de sidra, de goiaba, cortadas em taladas grossas.

Na noite do dia 24, geralmente chovia. Isso tinha pouca importância, o tempo feio não atrapalhava em nada a beleza da festa. Com a fantasia a mil, a meninada dormia mais cedo, cheia de expectativa. Antes de ir para cama, era costume cada um colocar os sapatinhos ao pé da Árvore de Natal ou nas janelas para o Papai–Noel deixar junto dele o seu esperado presente.  

Os adultos, todos animados, desde as 11 horas da noite, cantavam canções natalinas. Quando o relógio de Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Passos badalava as doze batidas da meia-noite, todos se juntavam para trocar abraços e beijinhos nas faces, desejando um para o outro, muita paz e muita felicidade. Em seguida, a troca de presentes e, só depois, a esperada ceia da ‘noite feliz’, devorada sem culpa. Todos sabiam que o que engorda não é o que se come entre o Natal e o Ano Novo, mas o que se come entre o Ano Novo e o Natal, sem limites.

Ao raiar do dia 25, o Natal amanhecia com a molecada divertindo com presentes bem bacanas. Hora de cada um exibir o seu brinquedo. Meninas passeavam com as bonecas, ou mostravam as suas destrezas com o hula hoop, bamboleando na maior intimidade com os aros em torno da cintura. Os meninos brincavam puxando o ‘caminhãozinho’ da vez, ou montados num cavalinho-de-pau, a galopar nas calçadas. Cenas que ficam grudadas na memória para nunca mais sair.

Nessa paisagem não podia faltar nas mãos da criançada uma garrafa do guaraná Champagne, o famoso caçulinha, furado com prego na tampa. E o melhor: podíamos comer de tudo até doer o queixo, a qualquer momento, em casa ou na casa dos parentes. Arre!... Achava  ‘bão’ mesmo!

Desde que me entendo por gente ouço críticas ao consumismo natalino ‘não existe mais nenhum espírito cristão... é só comércio..., dizia minha mãe por volta de 1960. Mas, sem sombra de dúvida, é uma festa alegre, mesmo para aqueles que não acreditam nos símbolos religiosos. Natal é presença, não ausência. É a alegria possível, porque a vida é muito curta e o amor é nosso maior dom, como nos ensinou Chico Xavier.

Hoje a noite é bela/Juntos, eu e ela/vamos à capela. A estrela que indica o caminho não está tão distante assim, está a brilhar dentro de cada um de nós.

- Feliz Natal!!!... Ho ho ho.

* bambolê, criado no Egito há três mil anos, feito com fios secos de parreira, favorecia as crianças imitar os artistas que dançavam com aros em torno do corpo.

* FBN© - dezembro de 2009 - É natal outra vez - Categoria: Crônica. Autor: Welington Almeida Pinto.

* FBN© - 2009 – NATAL OUTRA VEZ – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: crônica – Texto original em português - IIustr.: Internet – Link:
 

* DOIS MIM13. SALVE!...

*

Nelson Freire


Les Collines d’Anacapri, de Debussy
Concerto di Nelson Freire - Sala Palestrina
Ambasciata del Brasile a Roma


            No réveillon desse ano, a festa do Minas Tênis estava super animada. Num dos palcos até uma sósia de Layde Gaga deu o ar da graça. Igual na voz, na roupagem, no comportamento de palco - tudo como duas personagens de Plauto. Um show! A jovem, como se quisesse reinventar a bomba atômica nos últimos minutos de 2012, iradiava com todas as curvas de uma fêmea afogueada e bela, em delírio, num requebrado convulso, magnético.
Passava tanta energia para a platéia, que logo contaminou  até a moçada dos cinquenta, sessenta anos que pulou para a pista de dança, afim de misturar e engrossar a massa multicor de gente que sacudia o corpo ao ritmo de um som delirante. Isso mesmo. Representação de um inferno alegre e divertido sob os céus da existência.
            Na manhã seguinte, depois de um descanso merecido pela extravagância ladygaganiana, acordo e ligo a televisão. A telinha logo se abre com Nelson Freire interpretando Les Collines d’Anacapri, de Debussy – pianista nascido em Boa Esperança, pertinho da minha cidade de Passos – anunciando em ótimo som que o novo ano seguia musical. Coisa boa!
Abençoado por bons propósitos, sob as luzes de um céu cinza-azul povoado de pequenas nuvens brancas em Belo Horizonte, pintou enorme vontade de chamar os dois filhos presentes na cidade, Vitória e Chico, para almoçar num selfservice onde eu pudesse comer um bacalhau ensopado, sem atrapalhar a querência deles para outras iguarias.
            - Bacalhau, pai?
            - Degusto bacalhau... Vocês comem o quiserem.
            Acertado o cardápio, começamos a procurar um restaurante aberto no primeiro dia do ano. Nada fácil. O único que encontramos foi a Pizzaria Mangabeiras que não tinha bacalhau para servir, mas apresentava opções que os dois aplaudiram. 
Sentados, mesmo sem pedirem elucidações pela minha preferência por bacalhau,  comecei a explicar para eles que as primeiras lembranças que tenho do peixe salgado está nas minhas raízes de garoto crescido no interior. Naquela época, considerado peixe de segunda, era mesmo muito barato. Para chamar atenção dos clientes, os armazéns de ‘secos e molhados’, dependuravam o peixe salgado até do lado de fora do balcão, mostrando que o estabelecimento fornecia um produto de boa qualidade para atender a freguesia que não podia assar uma leitoa ou iguaria semelhante no almoço do Natal ou do Ano Novo. Quem entrasse no empório podia degustar uma lasquinha antes de definir pela compra.
Um dos filhos pergunta curioso:
            - Por que, pai, era tão barato e hoje é tão caro?
            - A explicação é, economicamente, histórica. Desde quando o Brasil passou a dominar o mundo com o abastecimento de café, os navios que vinham buscar o produto em grão, enchiam os navios de bacalhau para dar lastro na embarcação – o bacalhau, pela alta produção nos mares da Europa, manteve o preço baixo por longos e longos anos. Aportando aqui, os navios cafeeiros, abarrotados de caixas de madeira branca, despejavam o peixe nos portos por qualquer preço. Do mesmo jeito, os camioneiros que saiam para o interior buscar grão de café ou queijo passando por estradas ruins, para dar lastreio, enchiam as carrocerias de seus caminhões com o peixe da Noruega, principalmente. No destino, a história se repetia, vendendo bacalhau por qualquer oferta.
Quem viveu essa época sabe, guarda lembranças.
            Mesmo sem o bacalhau gratinado ou ensopado foi um almoço familiar de grande importância. Saboreamos os três um gostinho de família em tempos modernos, desejando uns aos outros um ano com boas doses de risos para todo o mundo.
Ridendo castigat mores.
Com peixe salgado, ou sem ele, tomara que o bom humor se alastre como surto por todos os lados, feito chama colorida pipocando pelo céu índigo.
Como o ano começou com música e acho que deve continuar assim, finalizo com as palavras do músico e escritor Fernando Brant, colhidas na sua crônica de quarta-feira última, jornal Estado de Minas, reproduzindo o trecho:... Tudo cercado da beleza da música, da poesia, do amor guardado no coração e explicitado em gestos, beijos. Penso em pessoas de ontem e de hoje e desejo a todos o que o título desta crônica diz: feliz tudo para todos.
Desejando a todos aproveitar doismil13 de forma bastante produtiva, agradeço e retribuo as mensagens recebidas em 2012.
Feliz Ano Novo.

* FBN© – DOISMIL13. SALVE!... - Categoria: Crônica. Autor: Welington Almeida Pinto – janeiro 2013
http://nataloutravez.blogspot.com.br/2011/12/em-edicao_9469.html

* QUANDO ME AMEI DE VERDADE

*

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                                             Charles Chaplin

        Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
         E então, pude relaxar.
         Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.
         Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
         Hoje sei que isso é...Autenticidade.
         Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
         Hoje chamo isso de... Amadurecimento.
         Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
         Hoje sei que o nome disso é... Respeito.
         Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
         Hoje sei que se chama... Amor-próprio.
         Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
          Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
          Hoje sei que isso é... Simplicidade.
         Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
          Hoje descobri a... Humildade.
          Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
          Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.
          Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
          Tudo isso é... Saber viver!!!

Feliz Natal! * Ano novo. Diário novo *  Acordar. Despertar * 
                                                 Réveillon
                              

POEMAS DE NATAL DE GUIMARÃES ROSA



*

João Guimarães Rosa



Das pastorinhas

Não mudamos 
nem o Natal 
só o mundo é mudança 
feita a esperança 
como num sonho um sino 

Menino 
face a face 
do oculto renasce 
desfaz a errada realidade 

Natal 
tão mais remoto que o passado 
íntimo mais que o presente 
que o pensar e sentir da gente. 

Só igual ao futuro amor 
recomeçado. 


Quatro poemas sobre o burro e o boi no presépio

Onde se aviva a doçura 
de um pouco de úmido e relva; 
de alma? 
Mas a própria luz 
que os circunfulge 
recebe 
das brancas frontes 
intactas de afeto, tontas, 
algo que faltava 
à sua excessivamente concreta 
pureza. 
Quentes limites de Deus, 
rudes, ternos anteparos. 
Apenas as grandes cabeças: 
mas tão de joelhos 
quanto os pastores 
os anjos 
as estrelas 
a Virgem. 

II 
Querúbicos. 
Irônicas imagens. 
Vibrar de fulgor floresce-lhes de esfinge os vultos 
- à hora atônitos. Como 
ante uma infração da ordem que aceitaram. 
Acordam, meio a um momento. 
Eles têm o segredo? 

III A fábula de ouro, o viso, o 
Céu que se abre, 
chamaram-nos de seu sono ou senso sem maldade. 
Tão ricos de nada ser, tão seus, somente. 
Capazes de guardar 
no exigido espaço 
a para sempre grandeza 
de um momento. 
Com sua quieta ternura, 
ambos, que contemplam? 
Sabem. 
Nada aprendem. 

IV 
Serão os pajens da Virgem, 
ladeiam-na 
como círios de paz, 
colunas 
sem esforço. 
Taciturnos 
eremitas do obscuro, 
se absorvem. 
Sua franqueza comum equilibra frêmitos e gestos 
circunstantes. 
Os animais de boa-vontade. 

Fonte: Revista Realidade. São Paulo: Abril, n. 21, dezembro de 1967.


* BIANCO NATALE - IRENE GRANDI





Col bianco tuo candor, neve
sai dar la gioia ad ogni cuor,
è Natale ancora
la grande festa
che sa tutti conquistar.
Un canto vien dal ciel, lento
che con la neve dona a noi
un Natale pieno d'amor
un Natale di felicità.
I'm dreaming of a White Christmas,
Just like the ones I used to know,
Where the treetops glisten and children listen
To hear sleighbells in the snow.
E viene giù dal ciel, lento
un dolce canto ammaliator,
che mi dice, spera anche tu
è Natale non soffrire più.
Mai più mai più, mai più,
Dreaming on Christmas Time,
Dreaming on a White Christmas,
Dreaming on Christmas Time,
Dreaming on a White Christmas,
Dreaming on Christmas Time,
Dreaming on a White Christmas,
Dalle stelle fino a quaggiù
E' Natale non soffrire più
più...più.. E' Natale non soffrire... più





* A ÁRVORE DE NATAL NA CASA DE CRISTO


*
Fiódor Dostoiévski

Fome na África

                                 
                  Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

              Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

              Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."

           Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

        - Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

        Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.
         - Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.

          - Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

           E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

           E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

- Fim -
 

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* WELINGTON ALMEIDA PINTO - PRODUÇÃO

*
 

Mineiro de São Roque. Apaixona-se desde cedo por livros, pela poesia, por personagens históricos e literários. Em 1971, conclui seus estudos em Passos, Minas, e transfere-se para Belo Horizonte, empregando-se no departamento contábil de uma empresa imobiliária, sem abandonar o gosto pela leitura dos grandes clássicos da literatura universal e a prática de Escritor e Jornalista.

 

Entusiasmado com o movimento cultural da Capital frequenta as reuniões da Academia Mineira de Letras e outras instituições culturais. Estimulado pela criação literária visita cidades da Europa e das Américas. De 1972 a 1976, Estuda no Centro de Pesquisas de Artes Plásticas da ACM, especializa-se em Publicidade e funda sua Agência.

 

No Teatro, produz ‘A Cela’, de sua autoria. Depois adapta e monta ‘Flicts’, de Ziraldo, como peça adulta, ambas dirigidas por Luciano Luppi. Participa da equipe de produção do espetáculo ‘A Noite dos Assassinos’, de José Triana, dirigida por Paulo Cesar Bicalho. Adapta ‘O Pequeno Príncipe’, de Antoine Saint-Exupery, para teatro infanto-juvenil, com trilha sonora de Fernando Boca e direção de Noema Tedesco. Publica Aula-Viva, com 6 scripts temáticos da História do Brasil para aplicação em Sala de Aula.

Eleito para o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, associa-se também à UBE – União Brasileira dos Escritores/São Paulo,SP, à ABRALE-Associação Brasileira de Autores de Livros Educativos/São Paulo,SP e à AEI-LEJ - Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil/Rio de Janeiro.

 

Publicou contos infantis no Gurilândia, do jornal ‘Estado de Minas’, Belo Horizonte, ‘Zero Hora Infantil’, Porto Alegre e ‘Gazetinha’, do Gazeta do Paraná, Curitiba.

 

Livros Publicados

 

Literatura infantil - Coleção Infantil Vitória Régia/Edita, 1997: ‘A Águia e o Coelho’ – ‘Clin-Clin, o Beija-Flor Mágico’ – ‘Tuffi, o Elefante Equilibrista’ – ‘Seu Coelhino, em Viagem ao Sol’ – ‘O Gato do Mato e o Preá’ e ‘A Caçada’ e ‘O Ataque do Furadentes’.

 

Literatura Infanto/Juvenil/Edições Brasileiras/1998: ‘Malta, o Peixinho Voador no São Chico’ – ‘Santos-Dumont, no Coração da Humanidade’ – ‘A Saga do Pau-Brasil’.

 

Literatura Adulta/Helbra/1969: ‘A Cela’ - Antologia Poética/2008 – ‘O Voo do Pássaro Dourado’.

 

Toponímia/Edita, 1987: ‘Dicionário Geográfico e Histórico do Estado de Minas Gerais’ – Edita, 1986 – ‘Dicionário Geográfico e Histórico do Estado de São Paulo’

 

Legislação Brasileira/Edições Brasileiras/1993: ‘Condomínio e suas Lei’s – ‘Licitações e Contratações Administrativas’ – ‘A Empregada Doméstica e suas Leis’ – ‘Lei do Inquilinato’ – ‘Assédio Sexual no Local de Trabalho’.

 

Dramaturgia/Edita/1978.: ‘A Cela’ – peça adulta, adaptação do livro do mesmo nome – ‘Flicts ‘- adaptação do livro “Flicts”, de Ziraldo – ‘Pequeno Príncipe’ - adaptação do livro “O Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry – ‘História do Brasil, em Aula Viva’ - adaptação de temas históricos para teatro, aplicados em sala de aula -

 

 

Homes na internet: welingtonpinto.blogspot.com – vários livros disponíveis rentabilizados pelo sistema Google Ad Sense. E-mail: welingtonapinto@gmail.com ; welingtonapinto@yahoo.com.br -

 

 

O AUTOR POR ELE MESMO:

 

Quando cheguei ao mundo, no ano de 1949, a 18 de março, a cegonha trouxe junto um anjo. E deixou um recado com a parteira: ... ele vai precisar, sempre. Ao tomar meu primeiro banho, soltei um grito e quase caí das mãos de minha bisavó. Creio que foi um grito e um gesto de alegria, aplaudindo a vida.

 

Aos dez, onze anos descobri a leitura através das obras de Vicente Guimarães ( Vovô Felício), Monteiro Lobato e outros. A partir daí comecei a construir meu universo de palavras, letra a letra, pondo em ordem aquele emaranhado de ideias que fervilhavam em minha cabeça.

 

Nos anos 1960, apaixonado pela cultura, mudei-me para Belo Horizonte, onde imaginava cursar gratuitamente uma boa universidade. Logo percebi que isso era privilégio para poucos.

 

Autodidata, mergulhei cedo na literatura e no jornalismo, e depois na publicidade, quando iniciei a publicar meus livros. Meu anjo!?... Nem torto nem reto me ensinou a sorver a vida como quem saboreia uma poesia, mesmo que, às vezes, concreta demais.

 

* Encontro na Literatura o compromisso de uma obrigação que há anos venho lutando para cumprir. Welington